A lua nessa primeira noite de inverno
estende sobre a cidade
um lençol de frio
que reluz aos olhos
a memória de teu corpo amornado ao meu
quando ainda éramos capazes
de desinventar todo inverno.
(Nilo da Silva Lima - Foto de Alice (internet)
Tarde morna de maio
pelos corredores do Mercado Municipal
as mulheres de seus vestidos estampados
e os homens sempre de olhos vazios
disputam pelas bancas
flertes vespertinos entre as frutas maduras da estação
de repente ali por perto mesmo
uma moça abre ao meio nas mãos
uma cereja
e derrama sobre o amarelo encardido da tarde
e o vozerio do Mercado
a rosa vermelha formada
em que habitam os excessos de luz, de cor, de sabor, de lábios recentes arredados
do outro lado da banca
o menino que não tinha ido ao Mercado comprar fruta alguma
mas que se permite escrito
pelas páginas dessa hora pelo Mercado
corre pra ajudar a moça
e de olhos em suas mãos escorrendo vermelho da fruta aberta
(agora quer)
outras frutas, outra fruta
havida, por haver para além dos pomares que apenas abastecem o Mercado
(o menino não se esvaziará mais desse cheiro de frutas esvaziado
pelo vermelho da cereja aberta nas mãos da moça
que ainda a traz impressa no corpo).
(Nilo da Silva Lima)
Num canto de rua no centro da cidade
A feira pródiga em frutas movimenta o sábado
A língua, os cheiros, os casos menos importantes guardados da pauta da semana
Tudo se mistura ao gosto de fruta madura lendo os vestígios da memória
Um casal conversa aparentemente alheio ao burburinho do núcleo da feira
A moça se desprende dos braços do rapaz
A estrela azul tatuada na nuca nua se ilumina ao sol
E ela volta com uma maçã nas mãos
A cor, a pele, o cheiro, o formato, o gosto herdado, o jeito da oferenda
Tudo na maçã parece envolto de outro gosto da mesma escrita
A moça ri
E depois de uma rápida assepsia feita na barra de seu vestido
Oferece a maçã ao rapaz
Ele a envolve pela cintura:
“Vê lá, hein! Já caí nesta uma vez! Por favor, me oferte outra fruta!
Eu ainda penso no paraíso!”
(Nilo da Silva Lima - Foto da página de Natália Leite)
14 de fevereiro. Verão. O mormaço do tempo hesita pelo corpo amadurecido das frutas pelos quintais, antes da podridão definitiva. Porque há sempre a podridão definitiva. Como o texto, ou a escrita recende suas últimas linhas pelo mormaço da página amadurecida, antes do derradeiro silêncio – do silêncio definitivo? – que se abaterá sobre ela. E, apesar da extensão imensa da folha em branco – uma folha em branco é sempre imensurável –, a escrita em sua exiguidade absoluta, como as frutas que recenderão o último cheiro que o corpo exala, e depois o silêncio, a memória e, por fim o esquecimento do dorso e do gosto da língua.
(Nilo da Silva Lima
).
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